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As festas das Alasitas : sementes indígenas andinas pela Grande São Paulo
Cristina de Branco - Analista de Pesquisa
O dia 24 de janeiro de 2025 amanhece e pela metade da manhã, nas imediações do Parque Dom Pedro II, no centro da cidade de São Paulo, se multiplicam pessoas vindas de metrô, ônibus e carro. Cruzando as enormes avenidas que dão acesso à várzea do parque, falando em espanhol, português, aymara e quechua, caminham famílias inteiras, avós e avôs, pais e mães, filhas e filhos, às centenas, rapidamente, aos milhares de pessoas circulando por entre o percurso de barracas onde vendem miniaturas de quase tudo que se possa imaginar. Tudo em pequenininho: tijolos, sacos de cimento, motos, ônibus, máquinas de costura, prédios, casas, certidões de nascimento e casamento, nenéns, trajes folclóricos e autóctones, embalagens de macarrão, arroz, sabão em pó, especiarias, notas de dinheiro falso, computadores, flautas, malas de viagem, panelas e muito mais. Tudo em miniatura, dispostos em barracas nesta e noutras feiras das Alasitas, pela capital paulista e área metropolitana afora. Desde 2000, a comunidade boliviana andina imigrante em São Paulo organiza esta festa de referência indígena aymara, historicamente celebrada na região de La Paz, no atual Estado Plurinacional da Bolívia, hoje em dia, também realizada em cidades do Chile, Argentina, Estados Unidos e Espanha, por pessoas andinas bolivianas migrantes nesses países.
Como Beatriz Morales, artesã e música quechua boliviana, migrante em São Paulo, explica: “a ideia da festa é rezar e celebrar a abundância, então compramos tudo o que queremos para o próximo ano mas tudo em miniatura” [1]. Logo, ao meio dia, esses itens serão abençoados por um yatiri (curandeiro e mediador espiritual aymara) num ritual de ch’alla (por vezes também abençoadas por um padre católico) e se multiplicarão.
Em entrevista, Andrés Zaratti, sociólogo boliviano, afirma que a Alasita é uma festa dos sonhos, afinal cada miniatura comprada e abençoada corresponde à potência da projeção convicta de um desejo [2]. As miniaturas das Alasitas, em parte feitas artesanalmente na Bolívia e trazidas para o Brasil e por vezes feitas também aqui na região de São Paulo, são illas. Como é descrito pelo coletivo de investigadores andinos bolivianos Pachakamani:
A Alasita, a partir da visão andina aymara, e a partir do ritual das miniaturas são illas. Uma espécie de sementes sagradas (...) quando adquirimos uma miniatura a transformamos em um elemento sagrado, este se converte em uma meta carregada de energia que sim ou sim vamos cumprir, através da força espiritual e da perseverança constante que cada um de nós vai lhe dar. [3]
O dicionário mais recente de aymara/espanhol, organizado por Teófilo Laime Ajacopa e outros linguistas aymaras bolivianos, afirma que illa designa “Amuleto. Objeto para atrair a sorte. || 2. Espírito dos produtos e bens, da família, do gado e do dinheiro” [4]. Desde antes da colonização espanhola, as illas eram e seguem sendo miniaturas de animais, pessoas, elementos naturais e sagrados talhados em pedra ou esculpidos em barro, que servem para devoção e proteção. Existem illas de animais comuns nos biomas andinos como a lhama, o condor, o sapo, cada um com seus diferentes significados, mas também existem illas referentes aos animais respectivos a cada ano novo chinês, como tantas outras referentes a mundos outros não estritamente andinos. A antropóloga boliviana Varinia Oros, curadora da exposição Alasitas - Donde crescen las illas, inaugurada em 2017 no Museo Nacional de Etnografía y Folclore (Musef), em La Paz, escreve que
nos rituais, [as illas] não são apenas figuras, são a encarnação destes animais ou a materialidade energizada, por isso não é estranho que as enterrem como sementes que crescerão e darão animais fortes, ou que os marquem com lãs coloridas como se estivessem florescendo, crescendo e se reproduzindo. Estas práticas rituais vêm do período pré - Inka e têm continuidade nas Alasitas da atualidade. [5]
Se a memória indígena andina e a arqueologia assinalam a existência histórica longínqua de illas de vasilhas e panelas de barro, de espigas de milho, de diferentes batatas, de lhamas e alpacas, de casais e bebês, hoje em dia, se encontram também milhares de miniaturas de produtos industrializados e tecnológicos, alimentos processados e documentos de viagem, de passaportes ao green card estadunidense, de diplomas na Universidad de El Alto a Harvard, de notas de dólar a notas de yuan. Como a pesquisa de Varinia Oros demonstra, os alasiteros, artesãos e vendedores das Alasitas, vão incorporando illas novas conforme se renovam e atualizam os sonhos e desejos das pessoas, oferecendo um panorama complexo e precioso da história da cultura material andina boliviana ao passar do tempo.
Entre tantas illas, a mais famosa e imprescindível para a compreensão histórica da festividade das Alasitas é o ekeko ou iqiqo, a figura de um homem vestido com um poncho repleto de miniaturas variadas, que representa abundância, prosperidade e crescimento. Algumas fontes asseguram que o ekeko é a illa de Tunupa, a entidade sagrada responsável pela gênese do mundo tiwanacota, do qual os aymaras descendem [6, 7, 8, 9]. Na onda das reivindicações pela devolução do patrimônio indígena aos seus territórios de origem, em 2014, o Museu de História de Berna (Suiça) devolveu a illa del ekeko, datada de mais de dois mil e duzentos anos, despojada pelo suiço Johann Jakob von Tschudi, em 1858, de um senhor aymara em Tiwanaku (atual região de La Paz, Bolívia) [10]. A datação milenar da illa del ekeko e a ancestralidade mítica de Tunupa demonstra a possível antiguidade da própria festa das Alasitas que provavelmente remonta às festividades do Illa Pacha, de 21 de dezembro, isto é, à celebração do solstício de verão realizada pelos povos indígenas aymaras e quechuas da região, festejada de forma clandestina durante quase toda a colonização espanhola [11].
Depois de um dos episódios fundamentais da resistência indígena aymara no Altiplano, o cerco a La Paz, em 1781, a celebração das Alasitas foi autorizada pelo domínio colonial espanhol e a data transferida para o dia atual. Como escreve Felipe Quispe Huanca, importante referente aymara também conhecido como El Mallku, com “o propósito de romper o silêncio e os laços seculares da dor, fome e miséria, discriminação racial (...) contra a casta parasitaria europeia, que se ancoraram nas nossas terras” [12], os líderes aymaras Tupaj Katari e Bartolina Sisa organizam dezenas de milhares de homens e mulheres indígenas para cercarem e impedirem a entrada de alimentos e quaisquer bens na cidade de La Paz. No livro Leyendas de mi Tierra, de Antonio Diaz Villamil [13], conta-se que durante esse levante katarista, Paula Tintaya, mulher aymara, servente de Úrsula de Rojas, esposa do Governador e Comandante de armas da cidade, Sebastián de Segurola, guardava uma illa do ekeko, presenteada pelo seu companheiro, também aymara, Isidro Choquehuanca, armado para manter o cerco. Pontualmente, Isidro levava alimentos para Paula, de modo a garantir que ela não morresse de fome nem fosse sacrificada e comida durante o cerco. Paula escondia essas pequenas porções de alimentos dentro da illa do ekeko e não apenas se alimentava com elas como também partilhava com Úrsula, mantendo ambas vivas e nutridas. Anos após o final do cerco que resultou no martírio de Tupak Katari, Bartolina Sisa e milhares de indígenas, em 1786, o Governador Segurola decide autorizar a festividade das Alasitas transferindo-a para o dia 24 de janeiro, em homenagem a Nossa Senhora de La Paz, a quem atribui o milagre da cidade ter sido salva diante do cerco indígena e a vitória espanhola. Villamil relata que em homenagem a figura que assegurou a nutrição de sua esposa, Segurola começou a difundir a imagem do ekeko, já muito conhecida, transformando-a num personagem semelhante a si mesmo e ao seu sogro, rechonchudo, de pele branca, de olhos claros e bigode, igual a figura de um q’ara (termo aymara que designa um espanhol ou descendente de forma despectiva).
Para além de todo o envolvimento ritual indígena por meio da chal’la, da antiguidade arqueológica e mítica da illa do ekeko e o vínculo com o levante indígena katarista, o próprio nome da festividade reafirma a potência aymara da festa. Como afirmam os investigadores do Pachakamani,
“alasita” é uma palavra aymara que significa «compre-me» e tem a ver com a troca e a reciprocidade. (...) Estes sentidos e práticas, apesar dos processos de colonização e evangelização, ainda conviveram na memória das pessoas, principalmente de comunidades indígenas. [14]
No entanto, por mais fortes que sejam os argumentos pela origem e devir aymara das Alasitas, a migração da festividade para outras regiões dentro da Bolívia e para além do Kollasuyu (território aymara que coincide hoje com o norte do Chile e da Argentina, o ocidente andino boliviano e o sudeste peruano), vem fortalecendo esses processos históricos de ocultamento da raiz e referência indígena da festa. Vai se naturalizando o sincretismo entre a ch’alla, a benção do yatiri, e a água benta católica como se isso não fosse resultado da violência atroz de processos coloniais seculares. Vai se assumindo a festa como patrimônio da nação boliviana, mesmo que a illa do ekeko retornada aos Andes tenha dois mil e duzentos anos e a Bolívia como país cumpra duzentos anos em agosto deste ano. Ao mencionar indiretamente a polêmica sobre a origem autêntica das Alasitas, em certo momento disputada entre La Paz e Puno (ambas grandes cidades do Kollasuyu, ainda que de diferentes países, Bolívia e Peru), o ativista e historiador aymara Pedro Portugal assegura que
A difusão internacional desta festividade tipicamente paceña, leva a que alguns bolivianos queiram “patentear” esta tradição e certamente a cobrar “direitos de autor”, porque sentem que a reprodução desta festa é um “roubo cultural”. Na verdade, se houve “roubo”, foi do poder colonial e do Estado boliviano que o substituiu, em detrimento da população aymara. Aí onde se dá as Alasitas, é sobre a base de uma população aymara. Trata-se de uma influência cultural nativa que nada tem a ver com a planificação “cultural” do Estado boliviano. [15]
Na cidade de São Paulo, sabemos de muitas pessoas andinas bolivianas que antes de migrarem compraram suas miniaturas de malas, passaportes, bilhetes de avião ou de ônibus (idênticos aos originais), fizeram-nas abençoar pelo yatiri e, assim, potencializaram a projeção do seu desejo migratório. Segundo Rocio Quispe Yujra, sua mãe, a Sra. Esperanza Francisca Quispe, também conhecida por Dona Panchita, de origem aymara, e sua família, realizou a primeira edição da festa das Alasitas, na época na Praça Padre Bento, no Pari, no ano 2000. Essa foi a primeira grande festividade pública da comunidade andina boliviana em São Paulo, seguida pelos primeiros carnavais e pelas festas pátrias de agosto. Entretanto, a festa das Alasitas vem sendo mencionada pela mídia sobretudo como festa estritamente boliviana, sem citar o vínculo aymara de seu sentido ritual e sagrado. Desde 2014, a “Feira da Alasita” foi incluída no calendário oficial da cidade de São Paulo por meio do Decreto Municipal Nº 54.788 de que trata a Lei Municipal Nº 14.485/07, apresentada por um texto sucinto no qual a festividade é caracterizada pelo seu vínculo à comunidade boliviana, uma vez mais sem qualquer referência à sua origem indígena andina [16].
Ainda assim, mais recentemente a festa vem contando com divulgações que começam a referir a “ancestralidade” da festividade e sua conexão com os povos originários andinos [17]. Nessa sintonia, a presença espetacular de Juan Cusicanqui, ator e músico aymara boliviano, que interpreta o ekeko desde 2009 em diversas festas das Alasitas pela capital paulista [18] reafirma a referência indubitavelmente indígena da festividade. A atuação de Juanito é normalmente iniciada e pautada por palavras e frases em aymara, pela referência direta ao vínculo aymara e também a solidariedade com outros povos indígenas andinos e não andinos, como os quechuas, os yanomamis, os guaranis, entre tantos outros sempre evocados. O ekeko de Juanito Cusicanqui complementa a prática ritual indígena aymara levada a cabo pelos vários yatiris que atendem em diversas festas das Alasitas para além do Parque Dom Pedro II, como no Largo do Rosário, no bairro da Penha, na Rua Coimbra, no Brás, e ainda no bairro Mandaqui, na zona norte da capital paulista, e em Itaquaquecetuba, realizadas por diferentes associações e coletivos. Pela tarde, nesses vários espaços públicos e abertos pela cidade e área metropolitana de São Paulo, durante e depois da benção às illas de milhares de pessoas aymaras, quechuas, bolivianas, peruanas e brasileiras, escutamos e dançamos às moseñadas, pinquilladas e tarqueadas, músicas e danças autóctones de referência aymara e quechua que migram desde o Altiplano andino com seus universos tão amplos e complexos como o ajayu (energia vital) de cada um [19].
Agradeço ao César Chui Quenta que abençoou minhas illas nestas Alasitas de 2025 com a intenção e cuidado de sempre e à Rocio Quispe Yujra, Mama Beatriz Morales, Juan Cusicanqui e Chryslen Barbosa pela confiança e pelas conversas recentes sobre as Alasitas.
Referências:
[1] “Ventos do Peabiru” (Kollasuyu Maya, Visto Permanente, Vericéia Filmes, Brasil, 2023), EP.2: Estamos em todas partes:
Ventos do Peabiru | 2: Estamos en todas partes (legendas em pt/br) (legendas em português); https://www.retinalatina.org/peliculas/ventos-do-peabiru-cristina-de-branco/ (legendas em espanhol)
[2] Andrés Zaratti, entrevista para o Podcast La Caja de Viajes, Temporada 6, Episódio 5 (janeiro de 2022): https://open.spotify.com/embed/episode/7Dv3Eu8sVRIjrzVcVYA099
[3] Pachakamani, Bolívia, 2021: La Alasita: Patrimonio cultural, fertilidad y crecimiento - PachaKamani
[4] Laime Ajacopa, Teófilo, Virginia Lucero Mamani y Mabel Arteaga Vino. 2020. PAYTANI ARUPIRWA. Diccionario bilingüe Aymara – Castellano. La Paz: Plural Editores, pp. 77.
[5] Oros Rodríguez, Varinia. 2017. Alasitas - Donde crescen las illas. La Paz: Musef, pp. 7.
[6] Bertonio, Ludovico. [1612] 1984. Vocabulario de la lengua aymara. Cochabamba: CERES, IFEA, MUSEF, p. 99.
[7] Ponce, Carlos. 1969. Tunupa y Ekako. Estudio arqueológico acerca de las efigies precolombinas de dorso adunco. La Paz: Academia Nacional de Ciencias de Bolivia. Publicación N°19.
[8] Paredes Candia, Antonio. 1982. Las Alacitas. La Paz: Librería - Editorial Popular.
[9] Cavour, Ernesto. 1994. Alasitas. La Paz: Prod. Graf. Contemporáneas.
[10] Suarez, Antonio. 11 de abril de 2020. “El explorador suizo que robó el ‘ekeko’ a los indígenas bolivianos”. In swissinfo.ch: https://www.swissinfo.ch/spa/cultura/johann-jakob-von-tschudi_el-explorador-suizo-que-rob%c3%b3-el-ekeko-a-los-ind%c3%adgenas-bolivianos/45615552
[11] Andrés Zaratti, entrevista para o Podcast La Caja de Viajes, Temporada 6, Episódio 5 (janeiro de 2022): https://open.spotify.com/embed/episode/7Dv3Eu8sVRIjrzVcVYA099
[12] Huanca, Felipe Quispe. 1988. Tupak Katari vuelve…carajo. Qullasuyu: Edición Pachakuti, pp. 46.
[13] Villamil, Antonio Diaz. 1976. Leyendas de mi Tierra: libro de narraciones basadas en el folklore nacional, destinado al uso de los escolares, La Paz: Libreria Editorial Popular.
[14] Pachakamani, Bolívia, 2021: La Alasita: Patrimonio cultural, fertilidad y crecimiento - PachaKamani
[15] Portugal, Pedro, 2006, “Una fiesta que persiste y se expande ¿Qué hay detrás del eqeqo y de las alasitas?” In https://jichha.blogspot.com/2017/01/una-fiesta-que-persiste-y-se-expande.html
[16] DECRETO Nº 54.788, DE 24 DE JANEIRO DE 2014, São Paulo: https://leismunicipais.com.br/a/sp/s/sao-paulo/decreto/2014/5478/54788/decreto-n-54788-2014-inclui-a-feira-da-alasita-no-calendario-de-eventos-da-cidade-de-sao-paulo-de-que-trata-a-lei-n-14485-de-19-de-julho-de-2007
[17] Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Cidade da Prefeitura de São Paulo, 23 de janeiro de 2023: Festa da prosperidade e da abundância será realizada nesta terça-feira no Parque Dom Pedro II - Direitos Humanos e Cidadania - Prefeitura
[18] O deus da abundância - mito Ekeko 2023, dirigido por Juan Cusicanqui:
https://youtu.be/Uyj4gVvECEc?si=VAN-18NrkPK-nGZv
[19] de Branco, C. (2022). Conjuntos e comunidades autóctones andinas altiplânicas na cidade de São Paulo: Panoramas temporais e espaciais. REMHU, Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, 30(66). https://doi.org/10.1590/1980-85852503880006607
Outras referências:
Pachakamani, 24 de janeiro de 2022: La Alasita. Compilación de publicaciones, estudios y podcast - PachaKamani
“El arte como instrumento” (Juan Cusicanki, Brasil, 2022): https://youtu.be/x0coVK33E-s?si=6Pkw8VhfwxXlEDhm
“Ekeko” (Eddy Apaza, Brasil, 2024): https://youtu.be/MhpReDpOHys?si=avg-TL6nddiZQWoZ
“La Ekeka” (Mujeres Creando, Maria Galindo, Bolívia, 2021 [2015]): https://youtu.be/nbpnFo23_sE?si=KDAg2dedIMJtZlxZ
Entrevista com Danitza Luna: "La Ekeka rompe con esa idea masculina de la providencia de las cosas"